As tradições culturais são lembradas e expressas de maneira alegre e contagiante

As manifestações culturais são expressas através de gestos e atos que representam a identidade social de cada região, como quando trazem à tona hábitos e particularidades das festas que ficaram registradas na cultura brasileira, seja através dos costumes, das religiosidades, músicas ou danças. Esses costumes se espalham e essa expressão cultural se estende para Uberlândia quando as pessoas vão às ruas pular o Carnaval, cantar durante a Folia de Reis, representar a arte nas quadrilhas durante as Festas Juninas e homenagear ao som do batuque, na festa do Congo em louvor a Nossa Senhora do Rosário.

O jornalista e pesquisador de histórias e curiosidades do município de Uberlândia, Antônio Pereira, destaca as tradicionais comemorações de ruas falando sobre as festas típicas e suas inspirações folclóricas. Ele afirma que no Brasil o folclore é artificial em alguns aspectos, pelo fato de não ter acontecido espontaneamente quando crenças foram criadas pela igreja no princípio da colonização, com o objetivo de atrair índios e negros para a religião. Questões em que as origens não eram folclóricas, mas foram transformadas. “Apesar das festas culturais terem forte influência religiosa, acho que são mais caracterizadas pelo folclore. O próprio carnaval, com tanta modernização, ainda mantém essas características vistas nas fantasias e na própria estrutura, com um significado histórico social muito interessante. Em Uberlândia as festas de maior destaque são: Folia de Reis, Carnaval, Festas Juninas e as Festas de Nossa Senhora do Rosário, com os Moçambiques e os Congos, com espetáculos bonitos e que passaram a ser respeitados graças à criação da Secretaria de Cultura, que em 1983 impôs certo respeito a esses movimentos”, afirma Pereira.

Em relação às Festas Juninas, Pereira considera que alguns costumes estão desaparecendo por causa da urbanização, como as festas de antigamente que eram realizadas com frequência nas fazendas, nas praças, com fogueiras e elevação dos Santos. “As questões folclóricas começam a ser desprezadas. Permanecem as festas com bailes e quadrilhas. Estão sumindo os hábitos que as pessoas tinham de passar descalças nas brasas das fogueiras, estão desaparecendo os costumes típicos. Deixou de ser algo natural, espontâneo, como eram feitas as quadrilhas na roça. Virou algo institucional e comercial”.

Festas Juninas

Os portugueses trouxeram para o Brasil na época da colonização muitas características da cultura européia, como as festas juninas, consideradas festas dos santos populares. O surgimento dessas comemorações no Brasil ocorreu no período pré-gregoriano, como uma festa pagã em comemoração à grande fertilidade da terra, onde os homens do campo agradeciam as boas safras. As comidas típicas dessa festa tornaram-se presentes em razão das boas colheitas nas safras de milho, arroz e outros cereais. Com estes cereais eram desenvolvidas várias receitas: arroz doce, bolos, caldos, pamonhas, bolinhos fritos, curau, pipoca, milho cozido, canjicada, entre outros. Essas festividades aconteciam no dia 24 de junho, para nós, dia de São João. Eram conhecidas como Joaninas e receberam esse nome para homenagear João Batista, primo de Jesus, que segundo as escrituras bíblicas, gostava de batizar as pessoas purificando-as para a vinda de Jesus. Assim, passou a ser uma comemoração da igreja católica, onde homenageiam três santos: no dia 13 a festa é para Santo Antônio; no dia 24, para São João; e no dia 29, para São Pedro.

Aos poucos as festas juninas foram sendo difundidas em todo o território brasileiro, mas foi no nordeste que se enraizou, tornando-se forte na nossa cultura. Nessa região, as comemorações são bem intensas, com a duração de um mês, onde são realizados vários concursos para eleger os melhores grupos que dançam a quadrilha. Além disso, proporcionam uma grande movimentação de turistas em seus estados, aumentando as rendas da região.

Com o passar dos anos, as festas juninas ganharam outros símbolos característicos. Como são realizadas em um mês mais frio, enormes fogueiras passaram a ser acesas para que as pessoas se aquecessem em seu redor. Várias brincadeiras entraram para a festa, como o pau de sebo, o correio elegante, os fogos de artifício, o casamento na roça, entre outros, com o intuito de animar ainda mais a festividade. Na época que a festa começou a fazer parte do calendário no Brasil, sofreu várias influências culturais dos portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Todos estes aspectos com o passar do tempo, se misturaram às diversidades culturais dos brasileiros, sofrendo influências nas diversas regiões do país, onde cada lugar tem sua organização diferenciada.

Em Uberlândia as festas juninas são comemoradas durante todo o mês de junho e se estendem até o mês de julho. Essa época festiva contagia as pessoas despertando nelas o lado religioso e o lado festivo, cada um com seu jeito e estilo. Uma festa marcada pela manifestação cultural, como a dança da quadrilha e as comidas típicas, além das festas temáticas. Essa manifestação é tão forte que se espalha pela cidade em vários locais como escolas, empresas, festas organizadas pelas igrejas, ONGs entre outros. Há também quem tem toda uma tradição de fazer festa junina em homenagem aos Santos. Pessoas que acendem a fogueira todo ano e erguem os mastros com as imagens dos Santos, uma maneira cultural de comemorar essa data marcante. Seja para festejar, levantar recursos, fazer homenagens, o importante é participar e contagiar, mostrando esta tradição aos jovens.

Ação Moradia

A festa da Ação Moradia vem reforçar o lado da tradição cultural festiva, que se manifesta através da dança ao apresentar o festival de quadrilhas, com uma disputa saudável, marcada pelo talento e alegria. Os grupos são compostos por pessoas de todos os segmentos que se apresentam de maneira motivadora, mantendo a tradição e apesar das dificuldades enfrentadas, fazem de coração, pelo prazer de dançar.

Eliana Maria Carrijo Setti, fundadora da Ação Moradia, conta que a história dos festivais de quadrilha em Uberlândia começou em 2011 e que esse ano completou sua terceira edição. “O povo por mais simples que seja, pesquisa, conhece, e quer dançar com o objetivo de jogar na dança o que ele entende de Brasil, de suas culturas e riquezas”.

Festa da Ação Moradia

 

A festa junina da Ação Moradia foi criada em 1996 para captar recursos no sentido de ampliar o trabalho da ONG e para manter os projetos de desenvolvimento da qualidade de vida da comunidade. Segundo Eliana Setti, a cada ano a festa adquire a sua própria riqueza e maneira de manter as tradições e características juninas, além das barraquinhas, das músicas e das comidas típicas quiseram acrescentar a dança da quadrilha, que faz parte dessa tradição. “No Brasil houve uma evolução muito grande no que diz respeito a essa dança. Se transformou em um espetáculo teatral de dança de todos os estilos e ritmos e através desse encantamento buscamos apoio na Fequaju (Federação de Quadrilha Junina de Minas Gerais), onde trouxemos o presidente da Federação que esteve conosco em 2011. Fizemos três dias de oficinas de capacitação e formação para grupos de Uberlândia que queriam disputar as quadrilhas juninas aqui. Esse ano fizemos um trabalho durante dois dias com um grupo de quadrilhas de Brasília. Trouxemos técnicos em oficinas que já conquistaram tricampeonato na capital. São quadrilhas que tem até 30 anos de experiência”.

A coordenadora afirma que esse espetáculo resgata as tradições, através do simbolismo, introduzindo o festival de quadrilhas juninas. A Ação Moradia trouxe três grandes grupos de quadrilhas: A “Renascer”, do estado de Goiás; “Os de Fora”, do estado do Mato Grosso e do Distrito Federal o grupo “Num só Piscar”. “Eles vieram abrilhantar o festival e não concorreram as premiações. Quanto aos grupos de Uberlândia, tivemos cinco que se apresentaram,participando do concurso, disputando a premiação. Inclusive recebemos apoio da Prefeitura, através das Secretarias de Cultura e Turismo, que contribuíram com as premiações e também tivemos o apoio do prefeito em relação ao transporte dos quadrilheiros”, afirma Eliana Setti.

“Minas e Uberlândia de Portas Abertas” foi o tema do festival com a intenção de destacar todas as expressões artísticas de várias regiões do Brasil, focando Minas Gerais e outros estados. Segundo a coordenadora, nesse ano a comissão que organizou o evento deixou em aberto o formato da dança, os grupos escolheram o que representar. Seguindo o único critério, porém item obrigatório, todos os grupos de quadrilha ao se apresentarem tiveram que prestar uma homenagem a Vinícius de Moraes, em comemoração ao ano de seu centenário. O evento ocorreu nos finais de semana durante todo o mês de junho, com encerramento no dia 29, quando aconteceu a final do festival de quadrilha. Os três grupos classificados receberam prêmios em dinheiro e troféus. O grupo “Farejador de Forró” ficou em primeiro lugar conquistando o tricampeonato; o segundo lugar foi conquistado pelo grupo “Pé de Moleque Reação” e o grupo “Arraiá dus Pé Vermei” foi classificado com a terceira colocação. Já o prêmio de melhor Marcador foi para Luciene Andrade, do grupo “Farejador de Forró”.

No que diz respeito às outras festas juninas da cidade, Eliana Setti afirma que também ocorre a manifestação cultural, com barraquinhas e apresentações de quadrilhas tradicionais com a linguagem afrancesada, mas em relação à disputa com festival de quadrilhas, a ONG Ação Moradia é a pioneira. “Toda essa parte cultural do folclore, da riqueza dessa expressão popular através da alegria, fazemos com muito prazer. Dentro do Triângulo Mineiro, Uberlândia é vanguarda. São mais de 120 quadrilhas no entorno de Belo Horizonte, mas no Triângulo Mineiro não existe Federação e nem grupos que disputam quadrilhas. Em termos de festas, Uberlândia ainda não atrai muitos turistas, mas se apostarem nisso terão um bom retorno, porque o povo brasileiro é festeiro. E o mineiro tem sua cultura própria, através das manifestações culturais como a dança eles podem mostrar as riquezas de Minas Gerais”, ressalta Eliana Setti.

Pé Vermei no forró

 

Aroldo da Silva Romão, organizador do grupo de quadrilha “Arraiá dus Pé Vermei”, que disputou o festival e se classificou em terceiro lugar, conta que a tradição junina através da dança de raiz está um pouco esquecida. Com o objetivo de resgatar suas origens ele se motiva a dançar. “Não posso deixar que isso acabe porque faz parte da minha história. Desde criança eu faço isso. Sou nascido no Pará, moro aqui há cinco anos. A vontade do povo nos estimula, porque vejo que o grupo faz questão de manter isso”. Ele explica o motivo da escolha desse nome para o grupo. “Quando iniciamos a quadrilha no Morumbi, o bairro se chamava Zaire Rezende e não tínhamos estrutura nenhuma, então ensaiávamos e dançávamos na terra mesmo e ficávamos com os pés vermelhos”. O grupo foi montado em 2008, atualmente é composto por 25 integrantes que com garra e determinação seguem com a dança, mesmo com pouco recurso financeiro. Durante a apresentação no festival de quadrilhas da Ação Moradia, os grupos deram um show de expressão à arte de dançar colocando a cultura em evidência.

O Coordenador da UFU 

 

Arlindo José de Souza Júnior (Coordenador/Líder do GEPECPOP – Grupo de Pesquisa em Educação e Culturas Populares UFU) destacou a importância dessa ação popular. “Fiquei muito emocionado de ver os jovens participando, esses que representam vários bairros de Uberlândia, eles mesmos se organizam e fazem as danças. É muito especial para a cultura e para a juventude. Essa é uma maneira de trazer o povo à praça para que elas façam a arte. O concurso é importante, mas o mais gratificante é ver cada um se expressar e mostrar sua criatividade. A perspectiva é de que a cada ano isso ocorra em outros espaços”. Segundo o pesquisador, o grupo vencedor da quadrilha vai se apresentar em outros lugares e também no encontro de educação e culturas populares da UFU. Vão mostrar sua arte na universidade, no sentido de motivar os jovens a se expressarem. “Nós da universidade conversamos com a equipe da Secretaria de Cultura sobre a importância das ações articuladas entre a quadrilha, entre as escolas, para fazermos de uma forma organizada, passando essa cultura, dando visibilidade e motivando a população”, ressalta Arlindo Júnior.

Secretário de Cultura

 

O Secretário de Cultura Gilberto Neves, falando sobre as manifestações culturais em Uberlândia durante as festas juninas, afirmou que: “as tradicionais festas juninas que ocorrem na nossa cidade durante anos mobilizam grande parte da nossa população. Das festividades que acontecem em vários locais na cidade, a Secretaria promove e patrocina a quadrilha. Para isso nós fizemos quatro parcerias durante todo o mês de junho e parte do mês de julho. Apoiamos a festa junina da Ação Moradia, que ocorreu na praça ao lado do Terminal Central, onde a ONG promove o festival de quadrilha. Estamos incentivando as apresentações, queremos ampliar o número de quadrilheiros”.

Além do apoio ao festival, a Secretaria de Cultura fez parcerias com a Pastoral Católica, o Center Shopping, em um evento que ocorreu do dia 13 ao dia 22 de junho, no estacionamento do shopping com shows todos os dias e com donativos que foram arrecadados para instituições sociais. Também apoiou a festa do Terno Moçambique Estrela Guia, que ocorreu no bairro São Jorge, onde teve como atrativo a quadrilha, festas em comemoração aos santos e o famoso forró pé de serra. Já no mês de julho a festa aconteceu nos dias cinco e seis no Mercado Municipal. “A Secretaria entende a importância, do apelo que essas manifestações culturais, especificamente juninas, têm na nossa população, por isso apoiamos e abrimos oportunidades para as pessoas” ressalta Neves.

Tradições

 

As tradições juninas deixaram histórias que passaram por várias gerações e seguem até hoje. Elas fazem parte das comemorações. São histórias de fé com referência aos santos, batizados ao redor das fogueiras, servindo como centro para a famosa dança de quadrilha. Os enfeites de bandeirinhas, as barraquinhas, as comidas típicas e os fogos não ficam de fora. Tem até histórias de Santo Casamenteiro e simpatias.

Como exemplo, o batismo na fogueira tem toda uma crença religiosa que foi passada há anos. Algo que foi vivido por Diná França do Nascimento, nascida em 13 de junho de 1943, data que se comemora o dia de Santo Antônio. Ela acredita fervorosamente no Santo Casamenteiro. Ao contar sobre essa crença, lembra como as comemorações daquela época eram marcantes. “Sou batizada na fogueira, aprendi com meus pais e avós, que, as crianças que fossem batizadas ao redor do fogo, eram livres de se queimarem, que estavam protegidas, não aconteceria nada de ruim com elas. Além do batismo da igreja, batizar na fogueira fazia parte da nossa tradição. Durante o batismo a gente andava ao redor da fogueira enquanto as pessoas faziam as orações. Nesse momento, rezava-se o Pai Nosso e três Aves Maria, pedindo a Santo Antônio que guardasse aquelas crianças e cuidasse da vida delas”.

Diná explica que naquela época, muitas pessoas se reuniam para o batizado. Inclusive todos se mobilizavam e consideravam até feriado no dia de Santo Antônio. Levantavam o mastro do Santo e faziam comidas derivadas do milho e outras guloseimas típicas da época junina. Após a comilança, dançavam a quadrilha. Além do batismo tinham as simpatias que as moças faziam para o Santo Casamenteiro. “Algumas moças colocavam o Santo de ponta cabeça, outras pegavam uma vela, um prato com água e iam rezando em volta da fogueira, deixando cair os pingos da vela na água. Naquele tempo, de acordo com o pedido, formavam-se as imagens através dos pingos das velas no prato apontando o nome do noivo e até a quantidade de filhos. Nós acreditávamos e dava certo. Presenciamos exemplos de pessoas que alcançaram a graça”, afirma Diná Nascimento.

Dona Diná conta que as festas daquela época eram diferentes porque as pessoas participavam mais e davam muita atenção em relação às crenças. “Hoje a vida está muito tumultuada e corrida, dificultando essas possibilidades. Era tudo baseado na fé e no amor, algo que as pessoas não expressam muito como antigamente. Espero que elas acreditem que procurem ter mais fé e serem mais confiantes, principalmente nesses dias”.

Os fogos de artifício

 

Outros costumes como os de usar foguetes ainda se mantém ativos. Hábitos comuns durante as festas de São João que no Brasil está relacionado com o tradicional uso da fogueira junina e seus efeitos visuais. Segundo crendices populares, os fogos servem para despertar o santo.

O empresário Paulo Cristiano de Oliveira atua no setor de fogos há 18 anos. Ele afirma que nesse período de junho a julho há um aumento significativo da demanda, que gira em torno de 400%. “Uberlândia é uma cidade que tem a tradição de realizar as festas juninas e as julinas. Atendemos vários tipos de clientes, como as escolas que buscam produtos na linha infantil. Já para os adultos são muito comercializados nessa época os fogos grandes. Fornecemos até para festas de aniversários e casamentos que são temáticas em caráter junino. Nesse tipo de festa tem que ter foguete. Essa data é considerada a segunda melhor do ano para o nosso setor”.

Oliveira afirma que para realizar uma boa festa com o uso de fogos sem causar acidentes, são necessários cuidados durante o manuseio. As pessoas precisam ficar atentas com as instruções das embalagens e aos tipos de fogos que compram, precisam se atentar a qualidade dos produtos e em comprar de empresas idôneas para curtir esses momentos com alegria. “Nessa época junina os tipos mais usados e adequados são: ‘traks’, ‘estalinhos’, ‘abelinhas’, as bombinhas, os giratórios utilizados pelas crianças. Para os adultos são aconselháveis as bombas e as baterias de solo, os foguetes de mão, ‘chuva de prata’. Alguns usam os fogos coloridos. Fogos com acionamento eletrônico também são muito seguros. Até dou instruções para que adquiram esses produtos em locais especializados, com registro e licença da polícia civil e do corpo de bombeiros. Para que ocorra a comemoração de forma saudável”.

Quanto às festas tradicionais como as de antigamente, que ocorriam nas cidades pequenas e nas fazendas, se transformaram em minoria atualmente. Percebe-se que as festividades estão mais comercializadas. Algo que não foge às tradições juninas, mas algo bem modernizado. Apesar disso, os modelos antigos de festas juninas, ainda são lembrados e praticados por algumas pessoas.

Morada Nova

 

Há seis anos a filha da Dona Adilce Gomes de Moura, Maria Lúcia de Matos, organiza uma festa junina ao modelo das antigas. “Depois que minha avó faleceu, essa tradição se passou para a minha mãe e hoje sou eu quem organiza. Ela fazia uma festa pequena para poucas pessoas e com o objetivo de seguir a tradição, ajudo a fazer essa festa maior, aberta para os amigos e vizinhos. Atualmente recebemos uma média de 180 a 250 pessoas. Vem gente até de fora de Uberlândia, como São Paulo, Ituiutaba, Monte Alegre e Araguari”.

Dona Adilce afirma que faz essa festa por considerar um dever familiar e por questões religiosas. “Tenho 72 anos e desde pequena, quando morávamos na fazenda, minha mãe fazia a festa e acendia a fogueira em louvor a São João. Quando acabava o fogo, ela passava descalça em cima das brasas e não queimava os pés. Comemoro em nome da fé e da minha mãe. Hoje acontece uma reunião maravilhosa para Deus e os amigos”. Durante a festa da Dona Adilce tiveram comidas típicas, como mané pelado, canjicada, pé de moleque, bolo de milho, de fubá, broa, pão de queijo, caldos de feijão e de frango, cachorro quente, quentão entre outros. Teve até uma programação baseada na tradição dos Santos.

A abertura da cerimônia, que esse ano aconteceu no dia 23 de junho, começou com a reza do terço, depois ocorreu a queima de fogos, com o levantamento do mastro dos três santos: Antônio, Pedro e João, e os batizados em volta da fogueira. Além da fartura da comida, o evento foi marcado pela música e a dança do forró. A festa foi toda enfeitada com bandeirinhas. “A minha mãe abre as portas da casa dela para receber o povo porque gosta de fazer a comida para todos comerem a vontade. É tudo feito de coração, porque fazemos questão que as pessoas participem com muita fartura, como era antigamente na fazenda. Todo mundo conversa e se diverte. É uma confraternização junina”.

A expressão cultural

 

Outro lado marcante dessa expressão cultural, que tem mudado atualmente devido à grande variedade de ritmos e sons também acompanhando os tempos modernos e o jeito eclético de cada um, são as músicas, principalmente as caipiras, que são muito lembradas nessa época.

O cantor e produtor Tarcísio Manuvéi ama e defende a tradição da música caipira de raiz, além de levar conhecimento sobre esse ícone da cultura brasileira para a conscientização das crianças. “Com o projeto social ‘Raízes do Sertão’, há sete anos levamos informações para os alunos das escolas das zonas rurais. Damos palestras sobre a história da música caipira, dos contos de causos, mostramos como as violas chegaram e como elas foram inseridas no campo. Além de mostrarmos como começou a música caipira”. O produtor e sua equipe se preocupam em passar para elas a importância das comemorações juninas e destaca os ritmos que marcaram épocas para estimular o interesse delas pela música originária do campo. “Fortalecemos e mostramos ritmos mais tocados nessa data, que é muito especial por relembrar e caracterizar o caipira de uma forma alegre. O ritmo arrasta pé, sempre muito marcante no sudeste, já o pagode caipira, sendo o ritmo recortado feito com a viola, e o violão que faz o ritmo ‘cipó preto’, juntando os dois ritmos faz-se o pagode caipira que é diferente do pagode do samba. Os brasileiros gostam muito de ritmos, por isso destaco também a quadrilha, por ser algo dançante”.

Manuvéi afirma que o grupo “Viola de Nóis” já tem seu público definido, mas também são muito requisitados durante as festas juninas, principalmente por terem os formatos dedicados a esse estilo de música. Normalmente os ritmos mais pedidos durante os shows são os mais clássicos da música caipira. Além dos xotes, as pessoas pedem as músicas “Adeus Mariana”, “As Mocinhas da Cidade”, “As Mocinhas do Sertão” e as de histórias cantadas: “Meninos da Porteira”, “Saudade de Minha Terra”, “Chico Mineiro”. “Essas músicas defendem esse estilo, que passa pelas festas juninas tradicionais mesmo. Além da música sou a favor da cultura caipira como um todo, é algo que merece ser preservado”.

Premiação

 

Essa preservação da tradição da cultura caipira, junto com seu talento de produzir música e cantar, rendeu prêmios ao Manuvéi e ao grupo musical do qual participa “Viola de Nóis”. Foram homenageados por conta das premiações no concurso Rozini de Excelência da Viola Caipira, em sua 3ª edição, promovido pelo IBVC (Instituto Brasileiro de Viola Caipira). O evento ocorreu em junho desse ano, no Memorial da América Latina em São Paulo. Ao concorrer com artistas de todo o país em mais de 24 categorias, entre elas violeiro, intérprete, dupla, grupo, letrista e arranjador, Tarcísio Manuvéi ganhou prêmio como melhor intérprete. Foi reconhecido pelo Trabalho Social: “Raízes do Sertão” e com a banda “Viola de Nóis”, que se destacaram como um dos melhores grupos de viola.

A mistura do folclore com a religião da forma como foi citada no texto aconteceu de maneira positiva, independente do que ocorreu naquela época. Foi e ainda é muito válido porque tudo o que acontece hoje é reflexo desse passado. O mais gratificante é perceber o quanto a cultura brasileira é rica de informações e expressões, porque através da história deixou marcas para serem apreciadas como são. Algo que continuará para as próximas gerações e apesar de ser modernizado com o passar dos anos, a essência de tudo não será esquecida, porque sempre terá alguém dos tempos anteriores para contar e expressar, como também terão pessoas dispostas a ouvir, mantendo e seguindo as tradições. Com certeza terão pessoas para apreciar. Assim, parte da cultura brasileira é lembrada nos meses de junho e julho e permanece guardada na memória da terceira geração que passa aos jovens aquilo que aprenderam com seus avós, bisavós e mostra a verdadeira raiz das comemorações de São Pedro, Santo Antônio e São João.

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