A mestra Salma Tannus Muchail é exemplo na educação brasileira  

Os leitores, investidores, clientes e amigos têm apresentado as mais diversas sugestões sobre matérias e projetos a serem desenvolvidos para melhorar ainda mais a Revista Dystak’s.

Entre dezenas de sugestões iniciamos nesta edição os destaques de pessoas da cidade e região que fazem sucesso no Brasil e exterior.

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Por sugestões de pessoas que conviveram com a nossa entrevistada na sua infância, desde o seu nascimento na cidade do Prata, aqui em Uberlândia, ou mesmo após ter escolhido morar em São Paulo, entramos em contato com a professora e sinceramente é muito difícil encontrar uma pessoa com tanta fineza, simpatia e sinceridade como a professora Salma Tannus, mestra com um conhecimento ímpar, conforme podem notar nossos leitores. Alegre, descontraída e muito profissional, a mestra nos atendeu no salão de eventos, onde reside sua família aqui em Uberlândia. Foi um bate-papo agradabilíssimo e que vamos guardar palavras como experiência para sempre.

A mestra

Salma Tannus Muchail, nasceu na cidade do Prata-MG, no dia dois de novembro de 1940. É filha de Namen Muchail e Helena Tannus Muchail. Acompanhando os pais que cuidavam de diversos ramos de negócios – seu pai foi inclusive professor de inglês e matemática – ela se mudou para Uberlândia, aos oito anos de idade.

Aqui Salma Tannus estudou no Colégio Nossa Senhora, onde concluiu o primário, o ginasial e cursou o normal. A inteligência e a vontade de estudar era tanta que decidiu se mudar para Campinas, onde cursou por um ano Pedagogia. Na ocasião em plena juventude e com todo o potencial e vontade de aprender, acabou descobrindo que estava no curso errado, e descobriu que as matérias que ela gostava estavam na Filosofia, coisa que ama até hoje. Prestou vestibular, e entrou no curso de Filosofia na Universidade Católica de Campinas. Permaneceu lá por quatro anos. Um ano de Pedagogia, três de Filosofia. Ela estava tão feliz que todas as coincidências encaminhavam certo na sua carreira. Havia dois professores belgas que vieram para a Universidade na mesma época que ela e eles escolheram alguns alunos, entre os quais a jovem estudante, para se iniciarem na pesquisa e ganhar uma bolsa para estudar na Bélgica. Então, com apenas 22 aninhos, foi estudar na Bélgica onde fez outra vez o bacharelado que já tinha feito aqui, fez também o mestrado, tudo em Filosofia e fez as disciplinas do doutorado. A tese de doutorado foi concluída e defendida no Brasil, na PUC de São Paulo.  Mais recentemente fez pós-doutorado em Paris, que é onde ela vai sempre para  participação em Colóquios. Na França ela vai frequentemente para conferências e encontros educacionais. Salma diz que tem professores com os quais ela trabalha lá. É que alguns estudantes que são seus orientandos de doutorado em São Paulo recebem também co-orientação de professores franceses, em atividades também chamadas de co-tutela. Alunos seus alunos vão para a França, ficam lá algum tempo, voltam e defendem a tese aqui.

Onde a senhora leciona hoje?

Eu leciono atualmente na PUC de São Paulo. Faz muitos anos, precisamente 47 anos, que eu leciono lá. Já lecionei em outros lugares como na Universidade Federal de Niterói, fiquei uns anos lá, ai estava muito pesado viajar de São Paulo para o Rio toda semana. Eu tinha que escolher e acabei ficando na capital paulista. Depois, eu trabalhei também oito anos na UNICAMP, viajando também. Nesta ocasião fui assumindo tantos compromissos na PUC de São Paulo que passei a dedicar meu tempo integral lá.

Hoje a sra. desenvolve o que na PUC?

Eu já tive vários cargos acadêmico-administrativo, de chefia de Departamento, de coordenação de Pós-Graduação, de direção de Faculdade, e mesmo de vice-reitoria. Atualmente só faço docência. Sou professora nos cursos de graduação e pós-graduação, (mestrado e doutorado) em Filosofia. Durante um semestre por ano também ensino no mestrado em gerontologia, curso destinado a pessoas que cuidam de idosos (médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, etc.) para os quais eu ministro uma disciplina filosófica intitulada “temporalidade e finitude”. Mas não é esse o meu trabalho principal. Minhas atividades mais regulares de ensino e orientações eu as faço na Filosofia mesmo. Além  disso, sou coordenadora de um grupo de pesquisa chamado “Grupo de pesquisa Michel Foucault” (nome do filósofo francês contemporâneo, que é o autor que eu mais estudo). O trabalho com esse grupo de pesquisa é talvez o que há de mais interessante no que faço atualmente, principalmente por ter um caráter interinstitucional, agregando pessoas  não são só da PUC mas também de outras instituições de pesquisa (USP, UNICAMP, Universidades do Rio, de Santos, etc.). Já teve até um pesquisador que veio da França fazer o pós-doutorado junto ao nosso grupo de estudos. É ali que se tem mais autonomia, mais liberdade nos estudos e no acompanhamento dos trabalhos dos alunos.

Com esse trabalho todo na educação, a sra. também já publicou livros?

Já publiquei sim. Livros completos que sejam só da minha autoria eu publiquei três. O mais antigo é sobre Lou Salomé, uma intelectual que teve bastante importância no ambiente de Freud e na vida de muitos poetas. O segundo se intitula Foucault, simplesmente, e o mais recente se intitula Foucault, mestre do cuidado.

Em co-autoria tenho diversos trabalhos, na forma de artigos ou capítulos de livros. Para dar alguns exemplos, há um livro sobre o ensino da filosofia, de que participei com vários autores. Outro, de que também sou organizadora, sobre a história do curso de Filosofia da PUC de São Paulo. A maioria dos meus textos tem sido sobre Michel Foucault, esse pensador que talvez seja o filósofo francês atualmente mais lido no mundo. No Brasil, há um grupo de estudiosos do pensamento deste autor e de autores do nosso presente, que promove, a cada dois anos, um Colóquio Internacional. O evento já se tornou regular e é realizado há mais de 15 anos, acontecendo, a cada vez, em diferentes Universidades. É um evento muito interessante porque é quando as pessoas se encontram, discutem seus trabalhos, e de onde resulta regularmente, o lançamento de livros com os temas dos Colóquios.

Dra. Salma como é a vida de uma interiorana que sai e vai ao mundo como é o caso da sra.? Vai dar educação no mundo?

Olhe, eu tenho sempre a impressão de que é muito melhor vir do interior do que se eu estivesse  numa metrópole, se eu tivesse nascido por lá e etc. A experiência pessoal, de quem nasceu no Prata e morou em Uberlândia, quando a cidade ainda era pequena, (agora não é mais), é muito rica, é uma experiência de encontrar  outros mundo e horizontes dentro dos quais as comparações podem ser feitas. Sabe, para as pessoas que sempre viveram nas metrópoles, penso que muitas coisas interessantes passam desapercebidas. Acho que eu nunca deixei de ser interiorana, mesmo morando três anos na Bélgica ou um ano em Paris e tantos em São Paulo. Eu nunca deixei de ser do Prata e de Uberlândia. E de Uberlândia é aqui do Fundinho mesmo, dessa região, desse bairro.

A sra. sempre está em Uberlândia para ver a mamãe?

Sim, venho ver a mamãe. Houve uma época que eu vinha menos. Mas sempre estava por aqui. Vinha nas férias, quando eu estava começando a carreira, não podia ficar largando o trabalho com frequência. Depois, quando meu pai ficou doente por muito tempo, e naquela ocasião eu tinha um cargo de vice-reitora, foi muito difícil, eu vinha toda semana a Uberlândia.  Depois que o papai foi embora eu venho, sempre que posso. Depois disto, morei algum tempo em Paris, mas volto sempre. Hoje, minha mãe está com 95 anos e eu venho praticamente todo mês.

Nós estamos conversando e a sra. me falou que quando é convidada para dar palestra em Uberlândia, vem com o maior prazer?

Com o maior prazer. Eu já recusei uma ou duas vezes por questões de impossibilidade total. Agora em agosto de 2015 haverá um Colóquio que acontecerá aqui, na Universidade Federal de Uberlândia, organizado por um professor que foi meu orientando de doutorado. É o professor Selmo Haroldo de Rezende. Ele fez o doutorado comigo, trabalha nas áreas de educação e de direito. Já por várias vezes ele vem organizando aqui Colóquios com temas especializados. Desta vez não poderei participar porque já tinha um compromisso assumido para a mesma data. Mas já participei em outra ocasião e tenho um artigo publicado no livro que resultou daquele Colóquio.

Com toda essa experiência, o que a senhora diz hoje para a juventude que está iniciando os estudos?

Vou dizer uma coisa que pode parecer saudosismo, mais acho que não é, pois afinal eu tenho contato com jovens o tempo todo. O ensino médio já foi muito mais rigoroso, muito mais exigente. Isso dava uma formação mais sólida nas várias áreas, mais sólida do que eu vejo hoje nos alunos que vão para as universidades. Então o professor tem que praticamente começar com eles e não é fácil. Quando eu iniciei meu trabalho de ensino, por exemplo, eu indicava textos em Inglês e Francês para os alunos de primeiro ano. Eles liam, hoje não. Há os que tem dificuldade de leitura até em português. Mas, para mim, que amo dar aulas, é um desafio e um exercício de paciência. Então o que eu digo aos jovens é que eles também precisam de paciência para aprender. É preciso que professor e alunos se dediquem mutuamente. Isso é muito claro quando se trata de ensinar e aprender filosofia. Filosofia não é uma coisa que se aprende nem se ensina de imediato. A filosofia requer uma disposição para um trabalho gradativo para que  se consiga chegar a formular uma questão, uma ideia. Requer muita leitura, pois não se pode ingressar no universo da filosofia como se cada um de nós fosse o primeiro a pensar. É preciso ler os clássicos, é preciso começar, e também prosseguir, aliás, como quem nada sabe. Esta é a condição para aprender e aprender com gosto.

Uma mensagem a população estudantil de Uberlândia? Ou do mundo?

Leiam, estudem com paciência, como eu disse, mas façam isto com prazer.  Se o professor tem gosto e o aluno também, a coisa vai bem, e é isso que eu diria, finalizou a grande mestra Dra. Salma Tannus Muchail.

 

 

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